sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Texto final de 2018, quando eu morri

 Eu vivi em estado de luto todos os dias, numa luta vã para seguir rumo à vida. As cores perderam as cores e a única coisa que tinha sentido era a falta de sentido. Me prendi num casulo feito túmulo, e mesmo me sentindo sem vida, tudo doía. A existência sem sentido é dolorosa. Me corroí em mim de tal maneira que cada passo a mais me levava ao chão. Se havia força, era para ficar parada. As flores que me adornavam tinham o mesmo tom de ornamentação de cadáver. A cada lágrima minha escorria uma despedida, e minha lápide estava formada. Eu vivi em estado de luto todos os dias pois a cada dia que passava eu morria mais, e de tanto morrer, fiquei sem vida. Mas nem mesmo os mortos descansam em paz! Não havia mais o que arrancar de mim, eu já tinha partido, e nada mais restou de mim que um coração partido. Não houve misericórdia: nem mesmo a fagulha de minha alma foi poupada. Eu não estava mais em mim. O ser cadavérico ainda caminhava pelos vãos da existência, buscando ardentemente o previsível fim. Nem mesmo o fim foi cordial em sua função, e nem mesmo ele eu conseguia tocar. Caí, sem sentir o impacto, pois não havia mais o que sentir. E caída me fiz chão: pisavam, varriam, quebravam. Não estava maia jogada, estava em minha condição. Eu fui luto todos os dias. Até mesmo a morte, impiedosa, se curvou em remorso, e a vida foi me acompanhando em sadismo. Mas eis que o luto tornou-se verbo, e minha lápide nada mais fez que enterrar aquela amargura.




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