sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Texto de 2018, ano em que morri

 Sobre aquela fatalidade idiota, onde eu morri e fiquei. Onde eu morri e fiquei, se não estou aqui, mas estou lá? Um erro mesquinho tirou minha vida de mim, e de tão tosco, não consigo me achar. Sigo vagando, num olhar vago, trilhos cheios de caminho. Mas não sei se caminho. É possível ir pra frente se ainda estou lá atrás? Descaminho, rebobinando, mas não encontro minha lápide. Ao menos, nao fui enterrada. Fiquei lá, em minha morte, procurando por mim. E minha quase vida de agora, num paradoxo brutal e idiota, busca aquela morte tosca, para viver de novo. Novo? Ficou perdido lá, ou está logo ali. Minha tragédia cumpriu com seu destino, mas eu ainda estou aqui, sem eu e sem minha tragédia. Aquela fatalidade tirou minha vida de mim, mas a deixou em algum lugar. Será que ei de alcançar essa fagulha de vida? Se ao menos tivesse sido enterrada, conseguiria decompor aquela amargura. Mas sigo coveira de mim, numa busca criminosa de um corpo que nem está lá, mas não está em nenhum lugar. Onde foi que esse corpo se desintegrou se sigo com ele aqui? Vai entender. Eu morri mas nem morta estou. Eu vivo mas nem estou viva. Isso sim é uma fatalidade idiota. Sigo em lástima, em luto, em vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário