sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Fragmentos da carta de um suicida

  Não há sentido na existência, na não existência, no gozo, na dor, nas lágrimas, nem mesmo no amor. Entrego minha alma, minha existência, a qualquer ser sedento de angústia. Angústia pra quê? 
As ondas sonoras me rondam agora, a música dança. É consolo. Ela, e as companheiras que insistem em voltar. Dada a dor é dada a evolução.
Minha feição não nega mais o desprezo que tenho acumulado por seres duvidosos que desprezam de minha verdade. Sei de meus planos, sonhos (todos vãos, visivelmente vãos) que são todos refúgios. Minha alma só busca proteção num abraço apertado; Seja de uma árvore, de um campo, de um mundo, de uma carne, mas que seja acolhedor. É uma espécie de escudo para que a falsa liberdade não me estraçalhe. A alma sem domínio algum perambula perdida em desejos que já estão fora de cogitação. Justo minha alma, que parecia estar tão livre... tão triste. Meu desejo, desejo de alma, é a estrada. Não sei se para amparo, não sei se paro. Talvez fuga de um lado, busca de outro; Talvez os dois, ou nenhum. É o desabafo de lágrimas confusas, de ideias prematuras ou maduras demais. Mas caminho numa estrada, em que chove abrigo e me banha orfandade. Porém, meu abandono está em mim. E tudo que abandonamos se encontra enraizado num mesmo motivo: inutilidade. Tudo que não há razão é descartado. Mas ainda há esperança, pois em nada há razão.
E por não crer em meu futuro, por meu destino não passar de uma trapaça criada por mim para sabotar a realidade, por não haver migalhas que alimentem meu passado e por não haver sentido algum no agora, é que me declaro morto.

22 de julho de 2015.

Isso tá parecendo um diário, não é mesmo? Acho que ninguém mais lê o que é escrito aqui, mas essa vai pra você, Kelly do futuro.

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