segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O irreal é real

Conto dedicado para aquele que tanto me inspira.






Distante da hipocrisia da sociedade, nesta vasta residência natural, aproveito o momento para contar-lhes a história da Princesa dos Ventos. Não se atreva a continuar lendo se não for capaz de compreender um mundo. Alias, como vai o mundo?
   Existe uma camada inferior no planeta Terra. O que difere esses seres de nós, é a vantagem de terem asas. Porém, iguala-se a nossa sociedade dissimulada. Mesmo com asas, que nós tanto valorizamos, o poder é dado pelo ouro verde, pedra valiosa nesta camada.
   Em um vale desvalorizado, não pelo mundo, nem por nada, apenas pelos seres gananciosos, morava Sofia, a Princesa dos Ventos. Seu adestrador, Robert, tinha grande influência sobre ela. Tendo perdido seu pai, um filho, e a vontade de viver, adestrava Sofia de forma que não seguisse seus mesmos caminhos. Por tentar impedir, ela parecia trilhar o mesmo. As asas de seus adestrador eram enormes, mas já haviam perdido o brilho.
   Ele travalhava numa fábrica de moldura de ouros verdes, que faliu por motivos deconhecidos. Diante dessa situação, o pobre adestrador não tinha motivos para viver, se não, castrar bem sua Princesinha.
   Mas a Princesinha foi crescendo, aumentando sua noção de realidade. Tocava um instrumento que aqui , chamamos de violão. Sabemos que o instrumento é semelhante, mas não sabemos ao certo qual é. Cansada da hierarquia e da divisão de classes, idealizou ir para Celestine, um mundo onde a única regra era viver, viver intensamente, viver feliz.
   Por vivenciar as cenas que a corroía em casa, tinha uma árvore negra, na qual sempre encontrava-se com sua angústia. No caminho para sua árvore, sempre se encontrava com olhares mentirosos e traiçoeiros. Isso a encomodava deveras. Não se conformava em viver em um mundo tão belo, e  não poder voar.
   Compoz uma música, na qual havia um trecho que sempre cantava:
   "Não diga o que pensa,
    Não faça o que quer,
    Não seja você,
    Viva sem viver."
    E junto as lágrimas e a indignação, ela finalizava este ritual, que lhe era rotina.
    Certo dia, quando a dor lhe chegou ao auge (pois dor maior nunca havia sentido), sentou-se em um dos grandes galhos de sua amiga árvore negra, e se deixou levar pelas suas companheiras, as lágrimas. Ao fechar os olhos, pensou que se ao menos pudesse voar, estaria agora em Celestine. Mas seu adestrador sempre aparava suas asinhas, então elas ainda não a aguentavam.
   Com um certo susto, sente que alguém se senta ao seu lado. Nunca havia visto asas mais belas. Olhos azuis como aqueles, não eram superados nem pelos céus. Apresentou-se como aventureiro Arthur, e desde então, falaram-se frequentemente. A cada encontro apaixonado, a árvore negra perdia toda a escuridão, e  tornava-se encantadora.
   Entendendo e respeitando os  ideais da Princesa, o Aventureiro demonstrou interesse e dizia que um dia a levaria para Celestine. O tempo foi passando. Ela o amava . Ele sabia disso. Não era necessário ser correspondida, nem nada. Bastava ver o brilho das estrelas se mantendo naqueles belos olhos.
     Foi então, que de uma Princesa qualquer, passou a ser a Princesa que amava. Não poderia haver melhor remédio para a árvore negra. Suas asas estavam crescendo. Estavam tornando-se dignas de quem conheceria Celestine. Porém, mais uma vez, suas asas foram aparadas. O sofrimento lhe tomou conta, pois estava encantada com suas asinhas.
   Possessão. Manipulação. Não era o homem o ser mais cruel da galáxia?
   Diante de tanta mentira, de tanto fingimento, ser de verdade faz com que conheça seres verdadeiros. E no aventureiro, ela encontrou a verdade. Mas o adestrador não admitia os olhares realistas. A ignorância lhe foi apresentada como dádiva. Afinal, você deve ser politicamente correto. Deve ser exatamente o porco adestrado que a sociedade impõe.
   Destrua o ouro verde. Sorria quando deve arrancar algo de alguém, e ria depois de arrancar. Viver e conviver com esse sistema doentio era tortura. Fugir para Celestíne nunca foi tão desejado. Longe da mentira, longe da adestração, longe de tudo. Já não sabia mais se estava fugindo da morte ou vivendo a vida. Não sabia se morreria, ou se já estava morrendo. Sabia apenas, que diante de tanta confusão mental, não havia refúgio melhor que Celestíne.
   Porém, apesar de um mundo sem regras, para entar lá, era necessário uma alma livre. Sim, aqueles seres semelhantes a nós também tinham alma. Era preciso ter uma alma livre do receio, do temer, da tristeza. Deve apenas ter uma alma pura. Ser puro. Não querer mais que viver. Amar. Ser feliz.
   Quantos seres já habitaram Celestine? É tudo tão belo, tudo tão magnífico.
   Numa crise existencial, Robert passava sua dor para a Princesa. Nada era mais gratificante do que ver o sorriso no rosto daquele pobre homem. Mas estava na hora de aceitar: a Princesinha não aceitava mais que limitasse suas asinhas, e não permitia mais que tocasse nelas.
   Encontrando um buraco negro, a escuridão sempre assusta, parecendo o único caminho, deixando nossas árvores negras. Aceitando este caminho como único, os seres se vem obrigados a segui-los e fazerem deles o negro colorido. Tornam-se limitados e obscuros.
    A Princesa dos Ventos, cansada deste caminho, decide tornar-se luz. Você é a luz de seu caminho. Você ilumina o escuro que convive. Seja luz, ilumine outros caminhos. Não há nada mais gratificante.
   Despreparada, foge para Celestine. Mas ainda é cedo. É rejeitada. Há muito o que evoluir. Suas asinhas ainda precisavam crescer. Compreendendo, com um sorriso no rosto, se forçou a dedicar-se cada vez mais, já que a dedicação é o segredo de qualquer resultado, e prometeu voltar para Celestine. Sabia que não voltaria sosinha.
   Quanto ao aventureiro, em Celestine se divertia, cheio de histórias para contar.
   Ele está salvando Celestine. Na verdade, já salvou Celestine a muito tempo.
   Existe um mundo grato a ele.
   Agora, nesta residência natural, o vento está me expulsando.
   Comparando o mundo inferior ao nosso, percebemos que ele consegue se igualar ao nosso. Nós destruímos nosso ouro verde ao invés de valorizá-lo. Nos permitimos termos asas limitadas, até mesmo cortadas, sem fazer nada por isso. Mas existe algo que salva qualquer ser em qualquer mundo: o amor.
   Vou me retirar junto ao vento. Conheceu agora a história que não tem fim. A sociedade não passa de um ciclo vicioso e doentio. Sorte de quem encontra a cura na luz, e tem a dádiva de amar.
   Qualquer um é capaz de entrar em Celestine, assim como qualquer um é capaz de voar.
   Grata por ouvir minhas histórias. Agora, se for capaz, feche seus olhos, e vá para Celestine.

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